ecologias especulativas para um herbário anticolonial na fazenda são joão

são muitas as línguas que ouço.
bicho gente planta pássaro
compositoras de um som que só a terra tem
y a dinâmica do lugar faz com esse som seja limpo, coeso.

os passos dados no chão do casarão

são anexados à memória sonora

da qual comento.

ao tempo.. 


a cachoeira não tem nome.


suas águas não binárias despertam o corpo acalorado.

na fazenda já há um herbário.

busco a partir dele, estabelecer conexões cruzadas da memória vegetal local com que vivencio agora.

a princípio somos  muitas pessoas e nenhuma delas se parece comigo.

estabeleço as conexões entre a vegetação local e minha memória de vida. 

a fazenda data de 1853, período vigoroso para as sociedades de plantation. 


Café, Babosa, Papiro… Todas oriundas de África.


A Mata Atlântica é um legado dos povos originários de Pindorama, como sua transdisciplinaridade no trato com as parentes vegetais. Na costura linear do tempo algumas se mantém de pé… outras estão ausentes ou em recuperação. 


mais que ponto dessa memória me interessa afinal?

a quem interessa essa memória? em quais aspectos pessoas indígenas e negras que aqui viveram exerceram sua memória em prática?  quais ecologias devem ser resgatadas? 

essas reflexões ainda iniciais remetem aos corpos vegetais e hídricos da região como pontos de poder

e reconexão. 

Quando a fazenda passou a existir o culto de oxum já havia sido introduzido na região Brasil, antes mesmo de uma codificação específica das religiões que a cultuam, seu culto remonta um período iorubá de plena conexão e trato com Oxum, que é Deusa, Mãe e Rio.

O rio Oxum em Osobó até hoje é resguardado pela floresta de mesmo nome, floresta encantada em que anualmente reúne sacerdotisas e sacerdotes filhes de Oxum em seu nome e festejo. 

Oxum é deusa das águas doces, mora no braço d'água que vive antes do Mar, nas voltinhas que seu fluxo faz em torno de pedras e raízes.

Oxum é senhora das águas. Na cosmologia iorubá ela é yabá, dialogando com Yansã no bambuzal, com Yemanjá no Mar, com Nanã na Lama. Elementos presentes nessa paisagem.

Chamo Oxum para essa roda na expectativa de deixar fluir as memórias molhadas.


notas para cachoeira:


Cachoeira vem do latim Capulu, remetendo a ideia de fluxo em borbulhas. O braço de água que passa por essas terras é parte da bacia piabanha, palavra que deriva do tupi pia'wãya, é nome de peixe endêmico daqui.

A presença e memória originária presentes nessa bacia. 

Os lírios que encontramos por lá são brancos, a cena altera pro terreiro de umbanda da vovó Rosa Baiana, em que todes seus filhes distantes das águas mas embebidos de sua força entoam:


Eu vi mamãe Oxum na cachoeira

Sentada na beira do rio

Eu vi mamãe Oxum na cachoeira

Sentada na beira do rio

Colhendo lírio, lírio ê

Colhendo lírio, lírio á

Colhendo lírio

Pra enfeitar nosso gongá


quando será a lua cheia?

quando irei transbordar?


Reativar uma memória com oxum. 


Conta-de-Lágrimas, Lágrima-de-Cristo, Capim-de-Nossa-Senhora, Capiá, Capim-Missanga, Capim-Rosário, Rosário, Conta.

Outra parceira nessa demarcação oxuniana, são as lágrimas de nossa senhora, que por sua vez é sincretizada com Oxum. Sincretismo esse embalado pela era cristã nessas terras. Outra vez uma memória longínqua pertencente ao chão, cosmológica, edáfica, dos corpos que passaram, que alí banharam suas dores, que alí plantaram suas flores e que alí colheram seus terços.

As lágrimas de nossa senhora e os Lírios não são endêmicos do Brasil assim como oxum e a virgem santa, mas aqui estão, prontas pra serem retomadas enquanto agências cosmosperceptivas de uma memória negre-originária atravessada por plantations.


O herbário da fazenda é focado nas plantas medicinais e alimentícias, fruto de pesquisa e processos desenvolvidos em outra edição da residência entre artistas e moradores. 

Esse herbário anticolonial se firma na medida em que posso contar histórias em diálogo com algumas espécies presentes e também na beleza e força que pode haver nas partes que caem de seus corpos vegetais, sazonais e terrosos.


Reúno Lírios, Lágrimas, Urucuns e Embaúbas. Entidades, parentes, diaspóricas que tomam para si o que já foi senzala, aqui estão, inaugurando um herbário anticolonial na Fazenda São João.


O tempo tá virando. Eparrey. 


Tenho pensando profundamente em propor como nome para a cachoeira a palavra YABÁ. 

YABÁ, são as deusas do panteão yorubá, introduzido no Brasil a partir da presença e memória negra em Diáspora forçada. Essa memória reverbera nos agentes naturais…

No sec.XVIII ocorreu o ciclo da Costa da Mina, um período em que 1,3 milhões de pessoas escravizadas foram trazidas ao Brasil, especificamente povos sudaneses, entre eles Yorubás ou Nagôs, Jejes ou Daomeanos, Minas, Huaças, Tapas e Bornus. (os traficantes em questão eram holandeses, portugueses, espanhóis,  e ingleses, já presentes em solo pindoramico. Pindorama era um dos nomes do território que hoje chamamos de Brasil. O ciclo da costa da mina, perdurou até 1815, quando a Inglaterra reprimiu duramente o tráfico, no entanto até 1851 o tráfico persistiu, sendo nessa altura o Rio de Janeiro considerado o centro escravista Brasileiro. Nessa saga o Café foi moeda de troca. O brasil teve três séc de trabalho forçado, sendo a lei áurea prescrita em 13 de maio de 1888.

Além disso, num panorama local, nações indígenas estavam na região. os Puris, Koropó e Coroados.

Os coroados tinham os cabelos cortados em forma de coroa, não tinham sobrancelhas e tingiam os cabelos com urucum. Os Puris foram empurrados para a região de Entre Rios, São José de Além Paraíba e Juiz de Fora, seguindo hoje num processo de retomada de sua memória, cultura e vida. Os Coroados foram exterminados antes de 1850 pela mesma sociedade de plantations que se instalava na região.


Voltando a fazenda, que data de 1853 segundo informações do Herbário atual…

percebo a distância enorme desse passado envolto no véu do apagamento. A memória dos ancestrais escravizados nessas terras se encontra nas ruínas e grades da senzala mas também está fortemente ligada a terra


Yorubás, Jejes, Puris, Coropós e Coroados são os povos cultivadores em questão. 

É essa memória que me interessa. Seus cultivos, sua paisagem.


MEMÓRIA PURI, KOROPÓ, COROADO, JÊJE, NAGÔ


A trajetória dessa terra que se refaz trançada entre as invasões, ficções e atualizações da fratura colonial/moderna.


O Brasil é ficção.


NOTAS PARA O PRESENTE:


Canções yoruba para ninar a memória preta nas águas da cachoeira.

Coleta do que cai para ativar dispositivos brincantes que retornam a terra e são novamente ofertadas a continuidade da vida.

Plantar urucum para florescer a memória originária

Cocar em Orí Branco é ofensivo...


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Os dispositivos invocam presenças outras, convidam corpos vegetais para a brincadeira,

a performance. Utilizo esses dispositivos na demanda de uma fabulação, como se uma entidade tivesse origem na cachoeira e aos poucos se aproxima para habitar os jardins da Fazenda. Uma entidade viva.


Encantamentos na fisiologia da paisagem:

Boldo, Guiné, Urucu, Embaúba, Guaco, Babosa, Rosas, Cidreira, Camomila, Ipê. 

Mestras transdisciplinares.


/ esse texto foi desenvolvido por Rastros de Diogenes no contexto da  Verãozão 2023 da Residência São João, Brasil.